Ou a divinização do homem pelas mulheres.
-Homem - esse ser superior.
Se há coisa que me enfurece (e não são muitas as que o fazem) é esta ditadura execrável, bem enraizada na sociedade portuguesa (ou na parte dela que conheço).
Desde que nasci que convivo com um burburinho que não raras vezes me levou a pensar que as mulheres eram criadas não para serem pessoas, felizes, realizadas, mas aias dos seus ilustres maridos.Toda uma educação tendente a transformá-las em óptimas donas de casa, sabedoras dos seus vários ofícios domésticos, prontas a satisfazer todo e qualquer desejo do seu amo, incluindo os que ele manifesta e aqueles que só vivem nos seus sonhos mais profundos e ela tem a obrigação de adivinhar. Mas...?!
Cresci a acreditar que, sendo o homem um trabalhador exemplar, deveria ser servido pela sua esposa. Esta, quando para mais não desse, deveria tirar o pão da sua boca e da dos seus filhos, imagine-se! para garantir um bom bife ao chefe (e ainda que fosse para o rejeitar no fim...). Homem que fosse homem, deveria ser dado a vícios e jamais se abster de satisfazer os seus pequenos prazeres. Porque era homem. E trabalhador. E isso justifica tudo.
Homem que fosse homem não ajudaria nas tarefas de casa. Não faz mal algum que a sua mulher chegue a casa estafada do trabalho, aguardando-a a lide da casa, os cuidados aos filhos, o preparar da refeição, a ajuda com os trabalhos de casa dos miúdos. Não faz mal, pois ela é mulher. E ele não.
Mulher não tinha opinião. Ou tinha de calá-la. Mulher obedeceria, cegamente.
As mulheres naturalmente não teriam acesso a determinadas profissões, frequentemente altos cargos de chefia, envolvendo grande responsabilidade, uma vez que estavam reservados aos homens.
Mulher que é mulher seria mal paga, ainda que desempenhando funções idênticas.
Cada vez que me cruzo com o mais ténue vestígio deste ideário não consigo sentir mais que nojo, repulsa, ódio e vergonha.
Tenho vergonha de viver numa sociedade na qual ainda há mulheres a permitir isto. Pois somos muitas. E se ninguém se opõe é porque as mães as educaram para serem esposas e mães e donas de casa obedientes.
Antes de sermos mulheres, somos pessoas. Somos pessoas únicas, com aspirações e desejos, com projectos e sonhos a concretizar. Somos brilhantes e podemos fazer grandes feitos a nível profissional. Não nascemos com tarefas marcadas e, se optarmos por casar, no casamento partilharemos tudo. Tudo. E não apenas as suas amarguras.
Não vejo como podemos ser pressionadas a abandonar as nossas vidas, para ficar em casa a zelar pelos filhos e pelo bem-estar desse ser divinizado. Não vejo como podemos permitir que se nos anulem os sonhos. Não vejo porque tenha menos direitos do que outra pessoa, apenas pelo facto de sermos mulheres. Não nascemos com a sina traçada. Não nascemos para tolerar vícios, perdoar traições, sofrer em silêncio os maus tratos com que retribuem tamanha dedicação ou sermos meros objectos sexuais, só para não sermos mal vistas pois, afinal, eles são trabalhadores.
Somos pessoas. Pessoas com o direito de fazer escolhas. Com o direito de voar mais longe. E repugna-me ver como as próprias mulheres ainda tantas vezes nos tentam cortar as asas.
Mas, muito mais do que isso, repugna-me que se esqueçam que todas temos sentimentos. Que os sentimentos morrem, sufocados, e um dia temos apenas mulheres amargas, escravas duma dependência económica, que há já muito morreram e se permitem deambular, eternamente condenadas pelo único pecado que cometeram... nascerem mulheres. E nascerem mulheres nesta sociedade.
É horrível pensar que nascermos todos iguais não passa de um mero sonho tolo de meia dúzia de idealistas.
(há muito que desejava escrever sobre isto mas aguardei por um dia em que não me sentisse particularmente irada para me não deixar levar por sentimentos extremos)